Pesquisadores identificam pessoas usando roteadores Wi-Fi comuns com 99,5% de precisão

Pesquisadores do Karlsruhe Institute of Technology (KIT), na Alemanha, desenvolveram uma técnica de identificação por Wi-Fi capaz de reconhecer pessoas com 99,5% de precisão usando apenas roteadores comuns disponíveis no mercado. O método, batizado de BFId, dispensa hardware especializado, não exige acesso à rede atacada e funciona mesmo quando o alvo não carrega nenhum dispositivo sem fio.

Os resultados foram publicados no paper “BFId: Identity Inference Attacks Utilizing Beamforming Feedback Information“, apresentado em outubro de 2025 na ACM Conference on Computer and Communications Security (ACM CCS 2025) em Taipei.

O estudo testou o ataque em 197 voluntários, o maior conjunto de dados já usado em pesquisas de identificação baseada em Wi-Fi.

Como o ataque funciona?

A técnica explora um recurso que está em todo roteador moderno chamado beamforming.

Introduzido com o padrão Wi-Fi 5 (802.11ac) em 2014, o beamforming permite que os pontos de acesso direcionem o sinal de forma mais precisa para cada dispositivo conectado. Para isso funcionar, cada cliente precisa medir periodicamente as condições do canal sem fio e enviar essa informação de volta ao roteador.

O detalhe crítico é que essa informação, chamada de Beamforming Feedback Information (BFI), trafega sem criptografia na camada MAC. Qualquer adaptador Wi-Fi configurado em modo monitor consegue capturar esses pacotes de forma passiva, sem precisar estar autenticado na rede.

Quando uma pessoa atravessa o ambiente, ela altera a propagação das ondas eletromagnéticas entre os dispositivos conectados e o roteador. O corpo humano funciona como obstáculo, modificando o sinal de maneira específica.

Portanto, cada indivíduo gera um padrão único de interferência, suficiente para servir como uma assinatura biométrica involuntária.

Por que supera técnicas anteriores

A identificação de pessoas por Wi-Fi não é uma absoluta novidade no meio academico.

Pesquisas anteriores usavam Channel State Information (CSI), uma medida de camada física que indica como o sinal de rádio se deteriora entre transmissor e receptor. O problema da abordagem CSI é prático: a extração desses dados exige firmware modificado, compatível apenas com um punhado de placas de rede.

Reprodução/ResearchGate

A mais famosa é a Intel 5300, uma NIC lançada em 2008 e amplamente usada em pesquisa acadêmica.

Segundo o paper do KIT, menos de 6% dos dispositivos Wi-Fi em uso em 2023 suportavam extração de CSI. Isso restringe brutalmente o alcance de qualquer ataque baseado nessa técnica fora de um laboratório.

CaracterísticaCSI (técnica antiga)BFI (técnica nova)
Padrão Wi-FiQualquerWi-Fi 5 (802.11ac) ou superior
Hardware necessárioFirmware modificado, Intel 5300Qualquer adaptador em modo monitor
Compatibilidade no mundo realMenos de 6% dos dispositivosMaioria dos roteadores em uso
Perspectivas capturadas por atacanteUma por nó maliciosoMúltiplas simultâneas (todos os clientes)
Acurácia no estudo (170 pessoas)82,4%99,5%
Features por amostra212740
Acesso à rede necessárioSim, em alguns casosNão

O ganho de acurácia do BFI sobre o CSI surpreendeu os próprios autores. Apesar de o BFI ser uma versão comprimida e de menor resolução do CSI original, ele entregou desempenho muito superior na identificação.

A explicação proposta no paper é que a compressão funciona como uma forma de filtro de ruído, e que cada amostra BFI contém mais features espaciais (740 contra 212 do CSI), aumentando a precisão.

Múltiplos ângulos de captura

Outra vantagem do BFId aparece na cobertura. Um único dispositivo de escuta consegue gravar simultaneamente o BFI emitido por todos os clientes da rede, capturando múltiplas perspectivas de qualquer pessoa que circule no ambiente. Em ataques baseados em CSI, cada nó malicioso captura apenas uma perspectiva.

Reprodução/ Proceedings of the 2025 ACM SIGSAC Conference on Computer and Communications Security

A diferença é importante porque permite reconstruir uma imagem volumétrica do ambiente.

O efeito é comparável ao de uma câmera, com a diferença de que ondas de rádio substituem a luz. A captura funciona através de paredes, ignorando a maior parte das barreiras visuais que limitam vigilância óptica tradicional.

“A tecnologia é poderosa, mas ao mesmo tempo traz riscos aos nossos direitos fundamentais, especialmente à privacidade. Ao observar a propagação das ondas de rádio, conseguimos criar uma imagem do ambiente e das pessoas presentes. Funciona de modo similar a uma câmera comum, com a diferença de que ondas de rádio são usadas no lugar de ondas de luz”

Professor Thorsten Strufe, do instituto KASTEL de cibersegurança do KIT

Café, escritório, calçada…

Os pesquisadores ilustram o risco com um exemplo simples. Imagine alguém que passa regularmente em frente a um café que opera uma rede Wi-Fi pública. Mesmo sem entrar no estabelecimento, sem carregar celular ligado e sem se conectar a nada, essa pessoa pode ser identificada pelo padrão único de interferência que seu corpo causa no sinal.

Em uma cidade conectada, com redes Wi-Fi onipresentes em comércios, escritórios e residências, a aplicação maliciosa do BFId abre cenários sombrios. Um atacante com acesso a múltiplos pontos de coleta poderia rastrear movimentos de indivíduos específicos por bairros inteiros, sem deixar qualquer rastro digital convencional.

A pesquisadora Julian Todt, primeira autora do paper, alertou que o ataque transforma qualquer roteador em uma potencial ferramenta de vigilância. Após o treinamento inicial do modelo de aprendizado de máquina, a identificação leva apenas alguns segundos para confirmar uma correspondência.

Mitigações testadas têm efeito limitado

A equipe avaliou várias contramedidas possíveis, e os resultados são preocupantes. Reduzir a frequência com que os relatórios de beamforming são enviados pelos clientes ao roteador teve impacto mínimo sobre a precisão do BFId, mesmo com taxas de amostragem severamente degradadas. O sistema continua identificando pessoas com altíssima confiança.

A solução mais robusta envolveria criptografar as transmissões BFI, mas isso exigiria mudanças no próprio padrão Wi-Fi. A consequência seria quebra de compatibilidade reversa com todos os dispositivos atualmente em uso, um custo prático que torna a adoção pouco realista no curto prazo. Bilhões de equipamentos no mundo todo continuariam expostos.

A defesa real depende de ajustes ainda mais profundos na arquitetura. Isolar fisicamente o ambiente com gaiolas de Faraday, desligar o Wi-Fi quando não estiver em uso ou usar dispositivos com beamforming desativado são alternativas existentes, mas pouco práticas para a maioria das pessoas.

A própria desativação do beamforming traz perda de desempenho que poucos usuários estarão dispostos a aceitar em troca de segurança.

IEEE 802.11bf e Wi-Fi sensing

O alerta dos pesquisadores tem uma dimensão regulatória importante: o IEEE publicou em 2025 a emenda 802.11bf, que padroniza formalmente o uso do Wi-Fi para sensoriamento de presença e monitoramento de ambientes.

A norma cobre aplicações como detecção de movimento em casas inteligentes, contagem de pessoas em espaços comerciais e identificação de quedas em ambientes geriátricos.

O time do KIT argumenta que o 802.11bf carece de proteções de privacidade adequadas. A pesquisa demonstra que o sensoriamento padronizado pode ser facilmente convertido em vigilância biométrica não autorizada, e os pesquisadores defendem a inclusão de salvaguardas obrigatórias antes que o Wi-Fi sensing seja amplamente implementado em produtos comerciais.

A janela para correção do padrão é estreita; fabricantes já desenvolvem chipsets que implementam o 802.11bf, e os primeiros produtos comerciais com a tecnologia devem chegar ao mercado ainda em 2026. Sem ajustes específicos, o roll-out massivo do Wi-Fi sensing pode normalizar a captura passiva de identidades em escala global.

Reprodução/ Proceedings of the 2025 ACM SIGSAC Conference on Computer and Communications Security

Wi-Fi 5, 6 e 7 estão na mira

Para usuários comuns, a notícia traz uma camada extra de preocupação sobre internet doméstica e privacidade dentro de casa.

Qualquer roteador Wi-Fi 5 ou mais recente, incluindo a maioria dos modelos Wi-Fi 6 e Wi-Fi 7 vendidos hoje, está sujeito ao ataque por design. Não há firmware ou atualização que resolva o problema sem mudar o padrão.

Cenários domésticos vulneráveis incluem prédios de apartamentos, onde um vizinho mal-intencionado a poucos metros de distância poderia, em tese, mapear quem entra e sai de cada unidade. Em escritórios, a captura passiva poderia identificar funcionários específicos sem necessidade de câmeras ou crachás.

O paper do KIT, junto ao dataset com gravações dos 197 participantes, está disponível para outros grupos de pesquisa mediante solicitação.

A intenção do time é acelerar o desenvolvimento de defesas, oferecendo o conjunto que demonstrou a vulnerabilidade para que a comunidade acadêmica possa testar contramedidas em condições reais.

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Indústria de chips precisa decidir

A pesquisa coloca uma questão difícil para o ecossistema Wi-Fi: as três principais empresas que dominam o mercado de chips de rede sem fio, Qualcomm, Broadcom e MediaTek, terão que decidir se incorporam mecanismos opcionais de criptografia do BFI em produtos futuros, mesmo com o custo de compatibilidade.

Reguladores de privacidade na União Europeia, particularmente sob o regime do GDPR, podem começar a tratar a captura passiva de BFI como processamento de dados biométricos. A classificação mudaria o status legal da técnica, exigindo consentimento explícito para qualquer coleta, com penalidades pesadas para violações.

A FCC nos Estados Unidos ainda não se pronunciou sobre o assunto, mas pesquisadores do setor já começam a pressionar por revisões nas normas de operação de redes sem fio.

A linha entre conectividade legítima e ferramenta de vigilância encolheu, e a indústria precisará responder rápido para manter a confiança dos usuários no Wi-Fi como tecnologia fundamental da vida conectada.

Fonte(s): KIT e Paper na ACM Digital Library

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