A fabricante londrina Billet Labs apresentou um PC gamer inteiramente sem ventoinhas, baseado em refrigeração líquida passiva e em uma arquitetura de três radiadores empilhados que aproveita o efeito chaminé para movimentar o ar.
A montagem combina uma GeForce RTX 5080 com um Ryzen 7 9800X3D e foi documentada em vídeo no canal da empresa no YouTube, junto a um post no Reddit que já acumula 1,6 mil upvotes na comunidade r/pcmasterrace.
O projeto é liderado por Felix, fundador da Billet Labs, e nasceu como sucessor do Raddy, computador anterior da marca que usava um radiador de ferro fundido vitoriano para refrigerar uma máquina parecida. O
Raddy, no entanto, tinha ventoinhas escondidas e sofria com bolhas de cavitação na bomba, problemas que motivaram a nova tentativa de chegar a uma máquina realmente silenciosa.
A escolha técnica central é abandonar qualquer ventoinha do gabinete e confiar apenas na convecção natural do ar quente, que sobe pelos radiadores arranjados em formato de torre.
Os componentes de alto desempenho foram herdados do Raddy, incluindo a placa-mãe Gigabyte Aorus Pro B850, 32 GB de memória DDR5 G.Skill e SSD de 2 TB.
Como funciona o efeito chaminé com três radiadores
O coração da montagem está no arranjo vertical de três radiadores de tamanhos diferentes. O maior deles, com dimensões de 200 por 400 mm, fica na base. Acima vem um radiador de 140 por 280 mm e, no topo, um terceiro de 25 mm de espessura nas medidas de 120 por 240 mm.
A lógica é que o ar aquecido pelos radiadores menores no topo sobe e cria uma corrente ascendente. Essa corrente puxa ar fresco através do radiador maior na base, exatamente como uma chaminé funciona. O resultado é um movimento de ar contínuo sem nenhum motor envolvido.
Felix descreve o objetivo de forma direta no vídeo, ressaltando que os dois radiadores menores funcionam mais como aceleradores de fluxo do que como dissipadores em si. A área de superfície combinada dos dois é inferior à do radiador grande, e a função principal deles é gerar a sucção que mantém o ar passando pelo principal.
Todos os radiadores tiveram a pintura preta original removida, revelando o cobre e alumínio internos. A escolha é tanto estética, com visual de arte cyberpunk moderna, quanto funcional, já que a pintura adiciona uma camada isolante mínima entre o metal e o ar.
Refrigeração da placa-mãe via base de alumínio
O sistema enfrenta um obstáculo conhecido em montagens fanless: a placa-mãe Aorus Pro B850 traz duas pequenas ventoinhas embutidas para resfriar os VRMs e o SSD M.2. Manter elas ligadas quebraria a proposta do projeto.
A solução encontrada foi inusitada. Felix usou uma placa de alumínio de 8 mm como base do computador e cobriu toda a parte inferior da motherboard com pads térmicos de 4 mm. Foram duas camadas, formando 6 mm de material condutor entre a placa e o alumínio. A intenção é transferir o calor diretamente para a chapa metálica, que passa a funcionar como um dissipador gigante.
A fonte Overtech Flex ATX modular de 600 W recebeu tratamento parecido. Pasta térmica no fundo permite que ela também envie calor para a base de alumínio, evitando que a ventoinha interna precise ser acionada.
“Sabemos que 6 mm de pads térmicos não dão a melhor condutividade térmica possível, mas ainda é muito melhor do que ar”
Felix durante a montagem, justificando o empilhamento das camadas
A bomba foi montada sobre pés de TPU impressos em 3D, peça simples que ajuda a amortecer a vibração e reduz parte do ruído residual do sistema.
Encanamento em cobre soldado à mão
Toda a tubulação foi feita em tubos de cobre de 15 mm, padrão usado em encanamento doméstico no Reino Unido. As conexões usam acessórios de latão da própria Billet Labs, soldados manualmente com maçarico.
A escolha do cobre não foi apenas estética: o material conduz calor com tanta eficiência que dissipa parte da carga térmica antes mesmo de a água chegar ao radiador principal.
O reservatório é um tubo de cobre de 54 mm na lateral direita do gabinete; a água sai por gravidade até a bomba, passa por sensores de pressão e temperatura, atravessa o water block da CPU, segue para o GPU e finalmente sobe pelos três radiadores em série antes de retornar ao reservatório.
A construção exigiu cerca de duas semanas de trabalho, incluindo polimento manual de todas as peças metálicas. A massa final ficou em 15,7 kg, contando os 2 litros de água destilada do circuito.
Desempenho real e quando o sistema engasga
Os testes começaram em estado de ociosidade. A temperatura da água parou em 28 °C após dez minutos, e a única fonte sonora audível era a bomba operando em 80% da velocidade.
A tabela abaixo mostra como o sistema se comportou em diferentes cargas, conforme dados publicados no Reddit pelo próprio Felix:
| Workload | Temperatura da água | CPU (média) | GPU |
|---|---|---|---|
| Ocioso (30 min) | 28 °C | Baixa | Baixa |
| Cinebench R23 (30 min) | 39 °C | ~90 °C | — |
| Halo 3 (30 min) | Sobe gradualmente | Estável | Estável |
| FurMark contínuo | 53 °C | Baixa | 78 °C |
| Expedition 33 e Cyberpunk 2077 | 53 °C a 55 °C | ~90 °C | Estável |
| Cinebench + FurMark juntos | 56 °C a 60 °C | Throttling | 78 °C |
A maior surpresa veio do comportamento da GPU. A GeForce RTX 5080 nunca chegou a throttle térmico, mesmo nos cenários mais punitivos. A temperatura ficou em torno de 78 °C com a água do circuito a 56 °C, o que indica que o water block sobre o chip está conseguindo extrair o calor mesmo com o líquido aquecido.
A CPU foi menos afortunada… O Ryzen 7 9800X3D começou a sofrer throttling em testes extremos, quando o die de cache 3D ultrapassou os 95 °C, limite térmico da arquitetura Zen 5 X3D. Curiosamente, os núcleos em si ficaram dentro da especificação. O problema se concentrou no CCD secundário e no I/O Die.

Limite da bomba e o problema dos 60 °C
O calcanhar de Aquiles da montagem não é Silício, mas a bomba. A temperatura máxima nominal de operação é 60 °C na água, valor que o sistema atingiu durante o stress test combinado.
Acima desse patamar, o equipamento começa a apresentar bolhas de cavitação, fenômeno em que a água vaporiza dentro da bomba e causa ruído metálico, vibração e desgaste prematuro.
A consequência prática é que, mesmo que o Silício aguente a temperatura, a bomba não. Manter o sistema rodando jogos pesados por horas levaria a bomba ao limite operacional, com risco real de falha prematura.
O próprio Felix admite no vídeo que não recomenda o uso diário dessa configuração sem ao menos uma pequena ventoinha de suporte.
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Conclusão do criador e próximos passos
O experimento valida algumas hipóteses e descarta outras. A transferência de calor da placa-mãe via pads térmicos para a base de alumínio funcionou como esperado, e os componentes auxiliares como VRM, chipset e SSD permaneceram em temperaturas seguras durante toda a bateria de testes.
Por outro lado, o uso dos dois radiadores menores no topo provavelmente prejudicou o desempenho global em vez de ajudar. As aletas finas desses modelos restringem o fluxo de ar mais do que aceleram a chaminé, e Felix sugere que removê-los poderia melhorar o resultado térmico.
Um vídeo de continuação está previsto, a próxima etapa adiciona uma única ventoinha de 120 mm no topo do conjunto, com a função de puxar o ar quente para cima e amplificar a corrente que já existe naturalmente. A expectativa é que essa pequena adição derrube as temperaturas da água em vários graus, mantendo o sistema praticamente silencioso e dentro dos limites operacionais da bomba.
A demonstração ajuda a explicar por que water coolers passivos ainda são raros no mercado de varejo. Mesmo com mais de 1 m² de área somada entre os três radiadores, cobre puro nas tubulações e uma base de alumínio funcionando como dissipador adicional, a configuração não consegue dissipar acima de 450 W de carga combinada sem ultrapassar o limite seguro da bomba.
Fonte(s): Billet Labs (YouTube)


