O Centro Nacional de Supercomputação de Shenzhen apresentou em 24 de abril de 2026 o projeto Lingshen, um supercomputador que tem como alvo um desempenho sustentado acima de 2 ExaFlops sem utilizar nenhuma GPU ou acelerador de hardware, e com componentes inteiramente produzidos na China. Os detalhes técnicos foram apresentados por Lu Yutong, diretora do centro e responsável pelo design do sistema.
Se as especificações anunciadas forem atingidas, o Lingshen seria o primeiro supercomputador a cruzar a barreira do exascale usando exclusivamente processadores CPU, uma abordagem radicalmente diferente da arquitetura adotada por todos os outros sistemas exascale em operação no mundo.
Arquitetura e escala do projeto
O sistema completo prevê 47.000 processadores distribuídos em 92 gabinetes de computação, acompanhados por 36 gabinetes de rede que formarão uma malha de interconexão de um milhão de portas.
O armazenamento previsto é de 650 PetaBytes em 428 nós, com 67 gabinetes de armazenamento refrigerados a líquido e largura de banda de 10 TB/s.
O projeto é dividido em duas fases. A fase piloto de verificação usa 100 servidores Huawei Kunpeng, baseados nos núcleos Taishan de arquitetura ARM, totalizando 12.800 núcleos.
O sistema de produção escala para 1.580 servidores blade com CPUs x86 e 101.120 núcleos, com potencial de adição de servidores quad-socket e octo-socket que somam mais 3.328 núcleos, chegando a um pico teórico acima de 10 petaflops nessa configuração intermediária.
O que o Lingshen pretende superar
O supercomputador mais rápido do mundo hoje é o El Capitan, do Departamento de Energia dos EUA, com desempenho Linpack medido de 1,809 ExaFlops e pico teórico de 2,79 ExaFlops. O El Capitan opera com 44.544 APUs AMD MI300A, que integram CPU e GPU em um único pacote de silício.
O Lingshen mira uma performance sustentada acima de 2 ExaFlops, o que em tese superaria o resultado real do El Capitan no benchmark Linpack. A ressalva importante: nenhum benchmark equivalente foi executado no Lingshen porque o sistema ainda não foi construído.
O desempenho declarado é uma meta de projeto, não um resultado medido.
A contradição dos x86 domésticos
Um dos pontos mais debatidos no anúncio é a afirmação de total independência de fornecedores estrangeiros combinada com o uso de CPUs x86 no sistema de produção.
As opções x86 domésticas da China se resumem a duas empresas: Zhaoxin, joint venture entre a taiwanesa VIA Technologies e o governo municipal de Xangai, e Hygon, que originalmente licenciou a arquitetura Zen da AMD antes de ser incluída na lista de restrições de exportação dos EUA em 2019 e perder acesso às versões mais recentes do design.
Nenhuma das duas demonstrou processadores competitivos com as gerações atuais de Intel ou AMD em workloads de computação de alto desempenho.
O anúncio não identificou quais fornecedores de CPUs serão utilizados e tampouco apresentou um cronograma operacional para o sistema completo.
“Não existe um único sistema exascale em operação que não dependa de GPUs ou aceleradores. A afirmação de que o Lingshen superará o El Capitan usando apenas CPUs domésticas merece ceticismo até que benchmarks reais sejam apresentados.”
A longa saga do exascale chinês em Shenzhen
O Centro Nacional de Supercomputação de Shenzhen tem um histórico de projetos exascale anunciados e atrasados.
Em 2021, análise do especialista David Kahaner, fundador do Asian Technology Information Program, revelou que a unidade havia selecionado a empresa Sugon para desenvolver um sistema de dois ExaFlops para instalação em 2022, mas o projeto foi adiado.
O processador previsto era uma versão mais nova do Hygon CPU, tornada inviável pelas restrições de exportação americanas impostas em 2019.
A China opera hoje dois sistemas exascale confirmados: o Sunway OceanLight, em Qingdao, e o Tianhe-3, em Tianjin, ambos sem figurar no ranking Top500 por razões políticas. Nenhum deles divulga benchmarks oficiais de forma transparente.
Precedente técnico real: o Fugaku sem GPUs
A ideia de atingir desempenho exascale sem GPUs não é impossível do ponto de vista técnico.
O supercomputador japonês Fugaku, desenvolvido pela Fujitsu com núcleos ARM personalizados que implementam a extensão SVE a 512 bits, foi o mais rápido do mundo entre 2020 e 2022 com 0,44 ExaFlops sem nenhum acelerador gráfico.

O precedente mostra que a arquitetura CPU-only pode funcionar em escala, embora o Lingshen esteja mirando um desempenho cerca de quatro vezes maior que o Fugaku.
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Ferramenta política
O anúncio do Lingshen surge de forma esperada, enquanto a China intensifica seus esforços para demonstrar autossuficiência tecnológica em semicondutores e computação de alto desempenho, diretamente pressionada pelas sucessivas rodadas de restrições de exportação americanas que limitam o acesso a GPUs da NVIDIA e outros aceleradores de IA de ponta.
Projetos como este cumprem uma função dupla: sinalizam internamente a viabilidade de uma cadeia de suprimentos soberana e enviam externamente uma mensagem de que as sanções não são suficientes para frear o avanço tecnológico chinês.
Se o Lingshen for construído dentro das especificações anunciadas, será realmente um feito de engenharia sem precedentes. Se seguir o histórico de projetos anteriores do mesmo centro, poderá se tornar mais um capítulo da disputa geopolítica em torno do silício do que um marco real no ranking de supercomputadores.


