A Flipper Devices, fabricante por trás do popular Flipper Zero, revelou nesta quinta (21) o Flipper One, novo gadget portátil voltado a hackers éticos, pesquisadores de segurança e entusiastas de eletrônica DIY.
O aparelho roda Linux completo, traz dois processadores, 8 GB de RAM, conectividade de rede robusta e preço estimado abaixo de US$ 350 (cerca de R$ 1.768 na cotação comercial atual) na configuração base.
A empresa, conhecida por já ter vendido mais de 1 milhão de unidades do Flipper Zero e gerado faturamento acima de US$ 150 milhões, descreve o novo produto como um projeto comunitário que ainda precisa de ajuda da comunidade open source para chegar ao mercado.


Por que o Flipper One não é o Flipper Zero 2
O CEO Pavel Zhovner foi categórico em diferenciar os dois produtos: o Flipper Zero opera no nível físico das redes sem fio, manipulando sinais de rádio em frequências sub-1GHz, NFC, RFID, Bluetooth e infravermelho. É um aparelho de bolso para análise e emulação de protocolos de baixa camada, com microcontrolador STM32 e foco em hardware.
O Flipper One sobe vários degraus na pilha de rede. O dispositivo trabalha em camadas mais altas, no nível de IP e aplicação, usando conectividade Wi-Fi 6E, Ethernet gigabit e modem celular opcional. É um computador Linux ARM portátil completo, voltado a tarefas como configuração de VPNs, análise de tráfego, ponte entre redes cabeadas e sem fio, e execução de modelos de IA localmente.

Em termos práticos, o Flipper Zero continua sendo o dispositivo certo para mexer com chave de carro, cartão de transporte e controle remoto.
O Flipper One é a ferramenta para quem quer montar um roteador personalizado, criar um gateway VPN portátil, fazer pentest em redes corporativas ou usar um desktop Linux de bolso conectado a um monitor externo.
Hardware: dois processadores, 8 GB de RAM e M.2
O cérebro principal do Flipper One é o Rockchip RK3576, SoC ARM octa-core lançado em 2024. A configuração traz quatro núcleos Cortex-A72 a até 2,2 GHz, quatro Cortex-A53 a 2,0 GHz, GPU Mali-G52 e uma NPU com 6 TOPS de capacidade para modelos de IA locais. A memória principal é de 8 GB de RAM LPDDR.
Como copropessador entra o Raspberry Pi RP2350, o mesmo microcontrolador dual-core do Raspberry Pi Pico 2. Esse chip cuida do display, dos botões, do touchpad, dos LEDs e do gerenciamento de energia, mantendo a interface funcional mesmo quando a parte Linux está desligada.+

A conectividade é o ponto mais agressivo da ficha técnica. Confira o resumo:
| Componente | Especificação |
|---|---|
| SoC principal | Rockchip RK3576 (4x Cortex-A72 + 4x Cortex-A53) |
| GPU | Mali-G52 |
| NPU | 6 TOPS |
| Microcontrolador | Raspberry Pi RP2350 (dual-core) |
| Memória RAM | 8 GB LPDDR |
| Armazenamento | 64 GB + cartão microSD |
| Wi-Fi | Wi-Fi 6E (2.4 / 5 / 6 GHz) — MediaTek MT7921AUN |
| Ethernet | 2x Gigabit Ethernet + USB Ethernet 5 Gbps |
| Saída de vídeo | HDMI 2.1 (4K a 120Hz) |
| Expansão | M.2 (formatos 2242, 3042, 3052), GPIO |
| Bluetooth | 5.2 |
| Display | 2,4 polegadas colorido, 256 x 144 pixels |
| Bateria | 7.000 mAh (preliminar) |
A porta M.2 abre o leque de uso. Aceita modem 5G ou 4G LTE, módulos SDR para análise de rádio, aceleradores de IA, SSDs NVMe ou SATA via adaptador e até placas Wi-Fi adicionais. É o tipo de modularidade rara em hardware comercial fechado.

HDMI 2.1, desktop Linux portátil e modelos de IA locais
O Flipper One traz uma saída HDMI 2.1 com suporte a 4K a 120Hz, ponto técnico expressivo para um aparelho desse porte. Combinado com USB e Bluetooth, transforma o gadget em desktop Linux improvisado, capaz de rodar navegador, editor de texto, terminal e ferramentas de rede em monitor externo.

A NPU embutida abre outra frente, a Flipper Devices planeja treinar modelos de linguagem locais (LLMs offline) para auxiliar o usuário a gerar arquivos de configuração, sugerir comandos e tirar dúvidas sobre a operação sem precisar de conexão com a internet. O recurso está em fase conceitual, mas faz parte do roadmap oficial.
A empresa também trabalha em uma distribuição própria batizada de Flipper OS, em estágio de conceito. Zhovner explicou que, apesar de usar e gostar do Raspberry Pi OS, considera difícil restaurar o sistema ao estado de fábrica sem reflashar o cartão SD. O Flipper OS vai oferecer perfis com pacotes e configurações pré-definidos para alternar entre projetos sem perder ambiente limpo.
Além do sistema, vem a interface FlipCTL, framework dedicado a controlar telas LCD pequenas via D-pad e touchpad. A ideia é facilitar o desenvolvimento de aplicações nativas para o formato compacto do aparelho, sem precisar de adaptações pesadas de software desktop.

Linux aberto de verdade: parceria com a Collabora
Um dos pontos mais importantes do projeto está fora do hardware: a comopanhia fechou parceria com a Collabora, consultoria especializada em desenvolvimento open source que mantém parte significativa do trabalho upstream do kernel Linux.
A meta é levar o suporte completo ao Rockchip RK3576 para a árvore mainline do kernel, sem depender de patches proprietários ou board support packages exclusivos.
A Collabora já vinha integrando o RK3576 desde 2024, com suporte inicial chegando ao Linux 6.12 em dezembro daquele ano. A versão cobriu clocks, gerenciamento de energia, armazenamento, rede, I2C, SPI, multiplexação de pinos e GPU. Decodificação de vídeo via hardware para H.264 e H.265 entrou no Linux 7.0 mais cedo em 2026.

“O estado atual do Linux em ARM é deprimente. Cada fabricante adiciona sua própria bagunça customizada: blobs de boot fechados, patches específicos do fornecedor, board support packages que ninguém fora do fabricante consegue realmente entender. Não dá mais para ler as especificações e entender como o computador funciona, só dá para aprender os contornos de um chip específico com um BSP específico. Estamos cansados disso e não queremos fazer parte do problema lançando mais um produto que só aumenta a bagunça.”
Vale o contexto: o cenário descrito por Zhovner é uma das principais críticas que a comunidade Linux faz a fabricantes ARM. A maioria dos dispositivos depende de kernels antigos com modificações específicas que nunca chegam ao código principal, deixando os aparelhos isolados em ilhas técnicas. O Flipper One quer escapar desse padrão.

Pendências técnicas e modelo de desenvolvimento
A empresa foi transparente sobre o que ainda falta. O código de inicialização da memória DDR continua dependente de um binário proprietário fornecido pela Rockchip. Os drivers da NPU para inteligência artificial e a decodificação de vídeo via hardware ainda não foram mainlineados no kernel.
O Flipper OS e o FlipCTL continuam como conceitos, os modelos LLM offline previstos para auxiliar os usuários ainda não foram treinados. A Flipper Devices também solicita ajuda para fazer engenharia reversa ou conseguir documentação sobre o estágio de boot OP-TEE do RK3576, peça crítica para garantir segurança em ambiente confiável.
A companhia abriu um portal de desenvolvedores e convida engenheiros, programadores, designers e usuários entusiastas a contribuir com o projeto.
O modelo é incomum no mercado de hardware comercial, que costuma operar com desenvolvimento fechado até o lançamento. Aqui, a empresa expõe todo o processo desde o início.

Preço e disponibilidade no Brasil
A Flipper Devices ainda não definiu data oficial de venda nem abriu pré-encomendas. A própria empresa admite que não sabe se conseguirá entregar tudo que planejou, citando incertezas econômicas, desafios técnicos e até a crise atual dos chips de memória RAM como fatores de risco.
O preço-alvo é abaixo de US$ 350 na configuração base, sem o módulo celular. Convertido pela cotação comercial atual de R$ 5,05 por dólar, o valor fica em torno de R$ 1.768 sem impostos brasileiros ou taxas de importação. Estimativas alternativas do site IT-Connect apontam faixa entre US$ 300 e US$ 500, dependendo da configuração final.
O Flipper Zero original chegou ao Brasil principalmente via importação, sem distribuição oficial em larga escala. O caminho deve ser o mesmo para o Flipper One nos primeiros meses, com previsão otimista de lançamento durante o segundo semestre de 2026, sujeita ao andamento do desenvolvimento comunitário.
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Para quem o gadget realmente faz sentido
O perfil do comprador do Flipper One é bastante específico. Pesquisadores de segurança que precisam de uma estação portátil para análise de rede, administradores de sistemas que querem um roteador customizável de bolso, desenvolvedores de hardware embarcado e entusiastas de retro computing devem ser os primeiros adotantes.
O preço não é trivial para uso casual: por R$ 1.700 sem impostos, é possível montar um mini-PC Intel com mais armazenamento ou comprar um Steam Deck, ambos com escopo de uso mais convencional. A proposta do Flipper One é diferente: oferece um equipamento aberto, modular e portátil, com foco em modificação e experimentação.
O sucesso do Flipper Zero mostrou que existe demanda real por hardware de nicho voltado a quem gosta de mexer no que está embaixo do capô. A empresa aposta que esse mesmo público vai aceitar pagar mais por uma versão muito mais capaz, mesmo aceitando que o produto chegue como uma plataforma em construção, em vez de um produto polido pronto para uso.
A janela de risco está bem mapeada; o hardware existe e funciona, segundo a própria fabricante. O software ainda precisa ser construído em parte significativa, com ajuda de uma comunidade que precisa surgir e se organizar.
O Flipper One é o teste de até onde o modelo de hardware totalmente aberto consegue ir quando combinado com ambição técnica alta e cronograma indefinido.


