A Apple começou a sondar Intel e Samsung para produzir parte dos chips usados em seus próprios produtos, num movimento que pode encerrar quase uma década de exclusividade com a TSMC. A informação foi divulgada nesta terça (5) pela Bloomberg.
Conversas iniciais e visita à fábrica em Taylor
Segundo a reportagem assinada por Mark Gurman, executivos da Apple tiveram conversas preliminares com a Intel Foundry e visitaram recentemente a planta da Samsung Foundry em Taylor, no Texas.
É a mesma instalação onde a coreana planeja produzir chips de 2nm para a Tesla. Nenhum pedido foi formalizado até aqui, e ambos os lados tratam a aproximação como exploratória.
A própria Bloomberg ressalva que a Apple “tem preocupações sobre o uso de tecnologia que não seja da TSMC e pode acabar não avançando com outro parceiro”.
Mesmo assim, sondar duas foundries diferentes ao mesmo tempo já é o sinal mais concreto até agora de que a maçã trata o risco de concentração em Taiwan como problema operacional ativo, e não apenas como hipótese para slides de apresentação.
A frase de Tim Cook que mudou o tom
A urgência ficou pública na teleconferência de resultados do segundo trimestre fiscal, na semana passada. Tim Cook, que já anunciou planos de deixar o cargo de CEO com John Ternus assumindo a posição, foi explícito sobre o que está acontecendo na cadeia de fornecimento.
“Temos menos flexibilidade na cadeia de suprimentos do que normalmente teríamos.”
Tim Cook, CEO da Apple
A declaração se conecta a um sintoma visível no varejo, visto que a Apple acaba de subir o preço de entrada do Mac mini em R$ 2,4 mil depois que a configuração base sumiu do configurador oficial.
O motivo apontado é a explosão de demanda por agentes de IA, que tem consumido capacidade da TSMC nos nós mais avançados.
Pelo levantamento mais recente da TrendForce, a foundry taiwanesa deve elevar a capacidade mensal em 3nm de 120 a 130 mil wafers no fim de 2025 para cerca de 180 mil até o fim de 2026, expansão de mais de 40% em um ano. O 2nm sai de 30 a 40 mil wafers por mês para perto de 100 mil no mesmo período.
Mesmo assim, a demanda dos hyperscalers de IA, puxada por NVIDIA, AMD e Intel, está consumindo cada wafer adicional antes mesmo de a linha entrar em operação.
Intel 18A-P entrou no chat…
A pista mais detalhada sobre o destino dos chips Apple feitos fora da TSMC vem de reportagem do DigiTimes e de análises da GF Securities assinadas pelos analistas Jeff Pu e Evan Lee. mais desempenho na mesma potência ou 18% menos consumo na mesma frequência.
Pelas duas casas, a maçã estaria avaliando o processo 18A-P da Intel para produzir os M-series de entrada a partir de 2027 e os chips dos iPhones não-Pro a partir de 2028. O 18A-P é a versão aprimorada do 18A que estreou no Panther Lake, com 9% mais desempenho na mesma potência ou 18% menos consumo na mesma frequência.
Há um detalhe contratual que reforça a tese. A WCCFTech reporta que a Apple já assinou NDA com a fundição da Intel e adquiriu PDK samples do 18A-P para avaliação interna. Em paralelo, a empresa também teria interesse no EMIB, sistema de empacotamento da Intel que permite costurar chiplets de fontes diferentes em um único produto.
O alvo, segundo a GF Securities, seria um ASIC específico da maçã previsto para 2027 ou 2028. A Samsung vai por outra via e anunciou recentemente o Exynos 2600 como o primeiro chip de smartphone produzido em 2nm, batendo TSMC e Intel no calendário.
Apple visitando a planta de Taylor antes mesmo do início da produção em volume não é gesto neutro.
| Foundry | Nó alvo para a Apple | Janela provável | Produto candidato |
|---|---|---|---|
| TSMC | N2 (2nm) | Segundo semestre de 2026 | A20 e A20 Pro do iPhone 18 |
| Intel | 18A-P (1.8nm classe) | A partir de 2027 | M-series de entrada e iPhones não-Pro de 2028 |
| Samsung | 2nm GAA | A partir de 2027 | Avaliação ainda em estágio inicial |
Yield ainda é o problema que ninguém resolveu
A pedra no caminho de qualquer mudança séria é o rendimento. Yield, em termos práticos, é a porcentagem de dies aprovados que sai de cada wafer.
A Samsung saiu queimada justamente por causa disso em 2016. Naquele ano, depois de dividir a produção do A9 (iPhone 6s e 6s Plus) com a TSMC, a Apple identificou diferenças térmicas e comportamentais entre os chips das duas foundries e encerrou a parceria. Do A10 em diante, só TSMC.
A Maçã também tem um benefício escondido com a TSMC que vai ser difícil de replicar. A foundry taiwanesa cobra cerca de US$ 30 mil (aproximadamente R$ 148,8 mil) por wafer de 2nm para a maioria dos clientes, que pagam o lote inteiro independentemente de quantos dies funcionam.
Já a Apple, por volume e relevância, opera num esquema chamado Good Die Only: paga apenas pelos chips que passam no controle de qualidade. Esse modelo transfere o risco financeiro do rendimento da maçã para a foundry.
“Reproduzir esse contrato em outra fabricante é improvável no curto prazo. Intel e Samsung querem a Apple desesperadamente, mas não estão em posição de absorver risco de yield numa relação ainda em construção.”
Volta de uma relação interrompida em 2016
Sob o aspecto industrial, voltar à Samsung Foundry para a Apple seria fechar um ciclo que ela mesma abriu.
A coreana fabricou todos os chips de iPhone do original ao 5s, ficou de fora, retornou em parte para o A9 e foi cortada em seguida. A reorganização interna na Apple acontece em paralelo: Tim Cook sai, John Ternus assume, Johny Srouji segue como Chief Hardware Officer e a divisão de Silício passou a ser comandada por Sri Santhanam.

Para a Intel, ganhar a Apple seria uma troca de patamar: a foundry da empresa azul ainda opera no vermelho, com prejuízo operacional de US$ 2,5 bilhões (cerca de R$ 12,4 bilhões) só no último trimestre, e tenta justificar os investimentos do governo Trump, que em 2025 tomou uma participação de US$ 8,9 bilhões (cerca de R$ 44,14 bilhões) no capital da empresa. Lip-Bu Tan, CEO desde março de 2025, fez da captação de clientes externos a missão central de sua gestão.
A Apple já reservou cerca de metade das linhas 2nm da TSMC, o que mostra que a foundry taiwanesa segue como ancoragem do plano principal. Os movimentos recentes na indústria de semicondutores apenas adicionam plano B e plano C ao roteiro.
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A renegociação que a Apple provavelmente terá que aceitar
Migrar qualquer M-series ou A-series para Intel ou Samsung depende de um acordo que vai além do preço por wafer. Implica abrir mão do Good Die Only e absorver risco de rendimento que hoje fica com a TSMC.
Pede também tolerância a variação térmica e elétrica em produtos que a maçã gosta de vender com performance idêntica entre unidades.
A empresa produz cerca de 247 milhões de iPhones por ano, sem contar Macs e iPads. Mesmo uma fração desse volume migrando para outra foundry implica mudanças em empacotamento, integração de software, calibração de modems e processos de qualidade.
O próximo sinal concreto, segundo o próprio formato da reportagem, vai vir de Intel ou Samsung, não da Apple….
Se uma das duas anunciar publicamente uma vitória de cliente envolvendo a Maçã ao longo dos próximos 12 a 24 meses, a sondagem vira contrato. Se nenhuma anunciar, o episódio fica registrado como mais um movimento tático na relação da Apple com sua principal fornecedora.
Fonte(s): Bloomberg


