Os pesquisadores Charles Bennett, físico americano da IBM, e Gilles Brassard, professor da Universidade de Montreal, receberam nesta quarta-feira (18) o Prêmio Turing de 2026 — considerado o “Nobel da computação” — pelo desenvolvimento da criptografia quântica. O método de segurança é baseado nas leis da física e pode se tornar o escudo definitivo das comunicações digitais na era das máquinas quânticas.
O anúncio foi feito pela Association for Computing Machinery (ACM). A conquista vem acompanhada de US$ 1 milhão, que será dividido igualmente entre os dois pesquisadores, e representa o reconhecimento de décadas de trabalho que, por muito tempo, foi visto apenas como uma curiosidade teórica.
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O RISCO DOS COMPUTADORES QUÂNTICOS
Na computação quântica, as informações são processadas por qubits, que podem expressar os valores 0 e 1 simultaneamente — fenômeno chamado de superposição. Esse poder dá às máquinas quânticas uma capacidade de processamento incomparável, mas também representa uma ameaça direta à segurança digital atual. Algoritmos como o RSA poderiam ser quebrados, expondo dados de governos, bancos e bilhões de usuários.
Pesquisas recentes mostram que o avanço dos materiais quânticos acelera esse cenário. Gigantes como Google, IBM e Microsoft, além de startups chinesas e europeias, correm para desenvolver computadores quânticos funcionais — o que acendeu a luz amarela em agências de defesa e no sistema financeiro global. O ex-CEO da Intel, Pat Gelsinger, chegou a afirmar que a computação quântica pode ser o estopim do fim da bolha da IA como a conhecemos.
O PROTOCOLO BB84
Em 1984, Bennett e Brassard publicaram um artigo que levou suas iniciais como nome: o BB84. Veja como o protocolo funciona na prática:
| Elemento | Criptografia clássica | Criptografia quântica (BB84) |
|---|---|---|
| Base de proteção | Complexidade matemática | Leis da física quântica |
| Detecção de espionagem | Não detecta em tempo real | Altera o sinal automaticamente |
| Vulnerabilidade quântica | Alta (RSA quebrável) | Nenhuma conhecida |
| Meio de transmissão | Digital (algoritmos) | Fótons via fibra óptica |
“É como se você tivesse um cadeado no envelope e, caso alguém tente violar o cadeado, o envelope se autodestrói. Na física quântica, se você tenta observar a informação, você atrapalha todo o sistema”, explicou Ana Paula Appel, embaixadora técnica de tecnologias quânticas e arquiteta sênior de IA na Red Hat.
DA REJEIÇÃO AO PRÊMIO MÁXIMO
A trajetória da dupla não foi linear. Nos anos 1980, Bennett e Brassard tentaram apresentar sua pesquisa em uma conferência da própria ACM e foram rejeitados. Décadas depois, a mesma organização descreve o BB84 como “um momento transformador na história da ciência da computação”. Os dois se conheceram por acaso em 1979, durante uma conferência em Porto Rico — e a parceria nasceu à beira de uma piscina.
“Isso significa que a área de pesquisa que iniciei há décadas com Charles Bennett finalmente recebeu seu mais importante reconhecimento internacional”, disse Brassard ao The Globe and Mail. Bennett, por sua vez, afirmou: “Comecei a pensar na relação entre a física e a computação, e se poderia haver processos físicos que fossem fundamentalmente não computáveis.” Não à toa, o Nobel de Física de 2025 também foi para avanços ligados à computação quântica, sinalizando que a área vive seu momento mais relevante da história.
O MERCADO E O “Q-DAY”
O temor pela quebra da criptografia clássica — o chamado “Q-Day” — já é realidade no setor financeiro. No Brasil, Bradesco e Itaú mantêm áreas dedicadas ao tema. O mercado de tecnologia quântica deve movimentar:
- US$ 106 bilhões em 2040, segundo a Qureca
- US$ 2 trilhões em acréscimo até 2035 nos setores de química, finanças, ciência e mobilidade, segundo a McKinsey
Via: BBC


