Travadas rápidas, sensação de “engasgo” e perda de fluidez mesmo com FPS alto. Esse é o retrato do stuttering, um problema recorrente em jogos de PC que afeta diretamente a experiência do jogador.
Embora o hardware muitas vezes consiga rodar o game em configurações altíssima, a entrega irregular dos quadros cria interrupções perceptíveis que comprometem a jogabilidade.
Abaixo, explicamos brevemente o que causa o stuttering, como identificá-lo corretamente e quais ajustes realmente funcionam para reduzir ou eliminar o problema.
O que caracteriza o stuttering nos jogos?
Stuttering é a irregularidade no tempo de entrega dos frames ao monitor. Em vez de quadros surgirem em intervalos constantes, há picos e quedas no frametime (tempo que cada frame leva para ser exibido), gerando microtravadas visíveis.
Por isso, FPS médio elevado não é garantia alguma de fluidez. Um jogo pode marcar 60 FPS na média e ainda assim apresentar engasgos frequentes que prejudicam a experiência.
Essa diferença entre “quantidade de quadros” e “regularidade dos quadros” explica por que métricas tradicionais como contador simples de FPS falham em capturar o problema. O olho humano percebe variações no tempo, e não somente números consolidados de quadros por segundo.
Por que FPS médio engana?
Ferramentas clássicas calculam FPS ao agrupar resultados em janelas longas, o que mascara picos de atraso.
Um único frame que leva centenas de milissegundos para aparecer já pode quebrar a ilusão de movimento contínuo, ainda que o restante do segundo tenha sido rápido. É por isso que recentemente a indústria passou a olhar para latência e distribuição de frametimes, justamente para revelar essas falhas.
Quando analisamos o desempenho quadro a quadro, fica evidente que consistência importa tanto quanto velocidade. Um único atraso significativo é suficiente para comprometer a percepção de fluidez
Certo, mas quais são as principais causas do stuttering?
1. Otimização do software e limitações da engine
Mesmo com hardware potente e drivers atualizados, muitos casos de stuttering têm origem direta na forma como o jogo foi desenvolvido e otimizado. Aqui, o gargalo deixa não é o PC do jogador e sim o próprio software, incluindo engine, pipelines de renderização e decisões técnicas tomadas durante a produção.
Em jogos mal otimizados, é comum que determinadas ações causem picos abruptos de frametime, como carregamento tardio de shaders, streaming de texturas em tempo real, compilação dinâmica de materiais ou chamadas excessivas à CPU em momentos específicos da jogatina.
Igualmente crítico é o shader compilation stutter, bastante frequente em lançamentos recentes. Ele acontece quando o jogo compila shaders durante a execução, em vez de fazê-lo previamente.
Como consequência, os engasgos recorrentes ao entrar em novas áreas, enfrentar inimigos inéditos ou acionar efeitos visuais que ainda não estavam carregados na memória.
Esse tipo de problema costuma ser independente da GPU ou CPU utilizadas. Sistemas de entrada e máquinas topo de linha podem apresentar o mesmo padrão de travadas, variando apenas a intensidade, o que reforça o papel central da otimização do software.
2. Gargalo de GPU
A placa de vídeo pode atrasar a renderização por carga excessiva, shaders pesados, texturas de alta resolução ou limitações de memória.
Tecnologias de reconstrução de imagem, como DLSS e FSR, ajudam a aliviar o processamento ao renderizar em resolução menor e reconstruir a imagem, estabilizando o frametime.
3. Gargalo de CPU
Jogos com mundo aberto, física complexa e IA intensa exigem muito do processador. Quando a CPU chega ao limite, a GPU fica ociosa aguardando dados, criando picos de atraso. Ajustes como densidade populacional, distância de visão e iluminação volumétrica costumam reduzir a pressão.
4. Memória RAM insuficiente
Rodar jogos atuais com pouca RAM causa trocas constantes com a memória virtual, o que eleva latências.
O cenário mais estável hoje é 16 GB em dual-channel, reduzindo gargalos de comunicação com a CPU.
5. Aquecimento e throttling
Temperaturas elevadas ativam redução automática de frequência para proteger o hardware.
O efeito colateral é queda de desempenho intermitente. Fluxo de ar adequado e manutenção preventiva são decisivos.
6. Drivers e sistema
Drivers gráficos desatualizados podem introduzir bugs e incompatibilidades. Fabricantes como NVIDIA, AMD e Intel publicam correções frequentes que impactam estabilidade e latência.
Unreal Engine 5 e os desafios recentes de desempenho
Grande parte das discussões atuais sobre stuttering passa pela adoção massiva da Unreal Engine 5, desenvolvida pela Epic Games. Embora a engine represente um salto tecnológico importante, ela também introduziu novas complexidades que impactam a fluidez.

Recursos como Nanite e Lumen ampliaram drasticamente o nível de detalhe geométrico e a iluminação global em tempo real. No entanto, esses sistemas exigem streaming constante de dados, múltiplas tarefas assíncronas e maior coordenação entre CPU, GPU e armazenamento. Quando esse equilíbrio não é bem ajustado pelo estúdio, o resultado costuma ser stuttering, especialmente em movimentação rápida pelo mapa.
Mais um fator recorrente em jogos baseados na Unreal Engine 5 é o uso agressivo de traversal shaders, responsáveis por ajustar a renderização conforme o jogador avança no cenário.
Em muitos títulos recentes, esses shaders são compilados sob demanda, causando quedas momentâneas no desempenho sempre que novas áreas são carregadas
Há também casos em que o problema está na configuração padrão da engine, replicada entre projetos sem ajustes específicos para cada jogo. Isso faz com que títulos diferentes apresentem padrões muito semelhantes de stuttering, independentemente do gênero ou da escala do mapa.
O aspecto mais delicado é que, nesses cenários, nenhuma configuração gráfica resolve completamente. Reduzir qualidade visual pode amenizar a frequência das travadas, mas raramente elimina o problema por completo.
A correção efetiva costuma vir apenas com patches de otimização, reestruturação do pipeline de shaders ou mudanças na forma como o streaming de dados é gerenciado.
Isso ajuda a explicar por que alguns jogos continuam apresentando stuttering meses após o lançamento, mesmo em PCs robustos, e por que análises baseadas apenas em FPS médio já não são reflexo da experiência real do jogador.
Tá bom, mas como identificar o problema de stuttering do jeito certo?
Monitorar frametime é mais eficaz do que observar FPS. Softwares como MSI Afterburner, em conjunto com RivaTuner, exibem gráficos que revelam picos irregulares.

A regra é simples: linhas estáveis indicam fluidez; espinhos denunciam stuttering.
Ajustes práticos que costumam funcionar
Limitar a taxa de quadros
Travar o jogo em 30 ou 60 FPS cria previsibilidade no frametime. O limite deve ficar ligeiramente abaixo da taxa do monitor quando possível, evitando colisões com o refresh.
V-Sync, Adaptive Sync e alternativas
A sincronia vertical reduz tearing ao alinhar frames ao monitor, mas pode introduzir atrasos e pioras na qualidade da imagem, deixando ela com aspecto borrado. Soluções adaptativas tendem a equilibrar melhor a entrega quando o desempenho oscila.
Reduzir opções com alto custo
Sombras dinâmicas, oclusão ambiental, cabelo e água avançados pesam no processamento. Priorize cortes nesses itens antes de mexer na resolução.
Fechar processos em segundo plano
Aplicativos ativos competem por CPU, RAM e disco. Streamings, navegadores e overlays podem intensificar picos de latência durante cenas complexas.
Verificar integridade dos arquivos
Arquivos corrompidos causam compilações e carregamentos inesperados. Plataformas de distribuição oferecem verificação automática que evita esses atrasos.
Quando nada resolve…
Como falamos acima, há títulos com problemas estruturais de engine, atualizações mal otimizadas ou cenários específicos que provocam stuttering persistente.
Nesses casos, patches e perfis de driver costumam ser o caminho mais eficaz. Atualização de hardware deve ser considerada quando os limites ficam claros mesmo após ajustes.
Não tem o que fazer, o jeito é cobrar da desenvolvedora e aguardar por atualizações.
Fluidez se constrói, não se presume
Stuttering não é um mistério insolúvel, tampouco um defeito único. Ele surge da interação entre hardware, software, drivers e configurações.
Ao priorizar consistência de frametime, monitorar corretamente e aplicar ajustes direcionados, a experiência melhora de forma mensurável. Fluidez nasce da regularidade e isso muda a forma como se avalia desempenho em games.
Dizemos que a análise moderna de desempenho migrou do “quanto” para o “quando”. Por isso, avaliar latência de entrega ao display é capaz de revelar falhas invisíveis em médias tradicionais e impulsiona melhorias em drivers, engines e ferramentas.
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