A Samsung Foundry enfrenta mais um obstáculo em sua tentativa de reconquistar a Qualcomm como cliente: segundo reportagem do Business Korea publicada nesta última quinta (9), o processo de 2nm GAA da empresa sul-coreana ainda não atingiu o índice de yield exigido pela fabricante americana de chips.
A consequência direta é que a Qualcomm considera concentrar a produção de seus próximos processadores na TSMC, mantendo uma dependência que a Samsung estava determinada a romper.
O número que trava o acordo
Yield é a taxa de chips funcionais por wafer. Em um lote de 100 unidades por substrato, um yield de 60% significa que 60 chips saem em condições de uso. Em processos de ponta abaixo de 5nm, essa métrica se conecta diretamente à lucratividade: quanto maior o aproveitamento, menor o custo unitário e mais previsível o fornecimento.
Segundo fontes da indústria citadas pelo Business Korea, o processo 2nm da Samsung ainda não atingiu o patamar de 70% de yield em produção em massa, que é a referência mínima estabelecida pela Qualcomm para fechar contratos de fabricação em larga escala.
No segundo semestre do ano passado, o índice estava na faixa dos 20%. Mesmo com a melhora recente, a Samsung teria ficado um pouco aquém dos 60% considerados necessários para estabilidade de produção em massa, enquanto a TSMC já opera entre 60% e 70% nesse mesmo nó, com estabilidade comprovada.
Parceria suspensa desde 2022
A relação entre Qualcomm e Samsung Foundry tem um histórico turbulento. A Qualcomm confiou à Samsung a fabricação de seus processadores de ponta até 2021, mas problemas de thermal throttling (queda de desempenho por superaquecimento) nos chips produzidos levaram a empresa a migrar de volta para a TSMC. Desde 2022, a parceria entre as duas empresas no segmento de fundição está suspensa.
No início deste ano, o cenário parecia mais favorável. As duas empresas retomaram conversas sobre contratos de fabricação em 2nm, impulsionadas pela expectativa de que a Samsung havia superado em grande parte os problemas históricos de yield.
O próprio CEO da Qualcomm chegou a mencionar publicamente a possibilidade de cooperação com a Samsung, elevando as expectativas do mercado sobre uma retomada da parceria.
No caso da Samsung, ela aumentou significativamente o yield em menos de meio ano, mas ainda haverá aspectos instáveis. Para atrair clientes, ela precisa, em última análise, garantir o yield por capacidade tecnológica. Se as coisas continuarem como estão, a Samsung pode acabar ficando para trás da TSMC até na futura batalha pela liderança no processo de 1nm e enfrentar o resultado de não conseguir atrair clientes
A declaração, feita por uma fonte do setor ao Business Korea, resume o desafio estrutural que a Samsung precisa superar.
Qualcomm pesa tudo para o lado da TSMC
Com as dificuldades de yield voltando à tona, a Qualcomm passou a reconsiderar sua estratégia de produção. A avaliação interna da empresa, segundo o Business Korea, é que faz mais sentido, do ponto de vista de gestão de risco, priorizar as linhas da TSMC.
Alguns analistas do setor chegam a cogitar que a Qualcomm poderia alocar todo o pedido para a rival taiwanesa, deixando a Samsung completamente de fora da cadeia de fornecimento do próximo Snapdragon 8 Elite Gen 6.
A TSMC, por sua vez, já consolidou uma base de clientes que inclui NVIDIA, AMD, Qualcomm e Apple no processo 2nm, o que reforça ainda mais sua posição dominante. A empresa taiwanesa detinha 70,2% do market share global de fundição no segundo trimestre de 2025, contra apenas 7,3% da Samsung, segundo dados da TrendForce.

Uma janela ainda aberta, mas estreita
Apesar do cenário desfavorável, a ruptura total entre Samsung e Qualcomm não está definida. A avaliação predominante na indústria é que, se os yields se estabilizarem acima de determinado patamar, a Qualcomm pode adotar uma estratégia de multi-sourcing a qualquer momento, distribuindo volumes ou linhas de produto entre as duas fundições.
A dependência excessiva de um único fornecedor também traz riscos para a Qualcomm, como menor poder de negociação de preços e vulnerabilidade a interrupções de produção.
A Samsung ainda tem cartas a jogar: o Exynos 2700, previsto para chegar ainda neste ano, será fabricado no SF2P, o segundo nó de segunda geração do processo 2nm da empresa.
Se esse chip consolidar bons resultados de yield e desempenho em volume real, a Samsung terá um argumento concreto para retomar as negociações com a Qualcomm em bases mais sólidas.
Leia também:
- Samsung supera 5 milhões de monitores QD-OLED vendidos e lidera mercado premium
- Samsung lidera mercado global de monitores gamer pelo 7º ano consecutivo
- Samsung praticamente vendeu toda sua produção de memórias até 2027
Yield é reputação, e a Samsung ainda deve a prova
O impasse com a Qualcomm não é uma negociação comercial perdida, mas ele expõe um padrão que se repete no histórico recente da Samsung Foundry: promessas de virada tecnológica que esbarram na dificuldade de sustentar yield estável em escala.
O processo 3nm GAA passou pelos mesmos problemas; agora, o 2nm enfrenta questionamentos semelhantes. Para a Samsung, reverter essa percepção exige muito mais dedicação do que números melhorados em laboratório.
Exige provar, em wafers reais e com clientes exigentes, que a operação está madura o suficiente para competir com a TSMC no nó que vai definir a liderança em semicondutores por pelo menos os próximos três anos.
Fonte(s): Business Korea


