A disputa por memória entre as maiores empresas de tecnologia do mundo acaba de entrar em uma nova fase quando o assunto é contratos de DRAM.
Relatórios da cadeia de suprimentos indicam que Microsoft e Google estão em negociações avançadas com a SK Hynix para fechar contratos de fornecimento de longo prazo de DDR5 e HBM, com vigência de três anos a partir de 2026.
O panorama sinaliza que o ciclo de alta nos preços de memória pode se estender muito além do que o mercado antecipava.
Contratos de três anos e pagamento antecipado na mesa
Segundo reportagem exclusiva do Hankyung, publicação econômica sul-coreana com acesso direto a fontes da indústria de semicondutores, a SK Hynix está em fase de ajuste final de um contrato de fornecimento de DDR5 com a Microsoft.
O acordo teria validade de três anos e movimentaria dezenas de trilhões de wons sul-coreanos, o equivalente a dezenas de bilhões de dólares
Entre os pontos em negociação estão dois mecanismos pouco comuns no setor: a criação de um piso mínimo de preço, que impediria quedas abruptas no valor unitário do DRAM durante a vigência do contrato, e uma cláusula de pré-pagamento entre 10% e 30% do valor total antes da entrega dos produtos.
Uma fonte próxima às negociações descreveu o pré-pagamento como algo inédito na indústria: “A maior diferença nesses contratos de longo prazo é que os provedores de nuvem em escala estão dispostos a antecipar depósitos. Isso é bastante notável.”
Paralelamente, a SK Hynix também mantém conversas com o Google para um acordo semelhante, cobrindo tanto HBM quanto DRAM de servidor convencional para uso em Data Centers.
Micron, Samsung e o efeito dominó no setor
O caso da SK Hynix não é isolado. A Micron Technology, terceira maior fabricante de DRAM do mundo, já fechou um contrato desse tipo no mês anterior à publicação do relatório.
Microsoft e Google também negoiam acordos semelhantes com a Samsung Electronics, o que indica que essa onda de contratos plurianuais está se espalhando por toda a cadeia de suprimentos global de memória.
A lógica por trás dessa mudança de comportamento é direta: empresas que historicamente fechavam contratos de fornecimento trimestrais ou anuais com fabricantes de memória passaram a buscar estabilidade de volume em um ambiente de escassez crescente.
O DRAM sempre foi tratado como uma commodity de alta volatilidade, o que tornava contratos longos pouco atraentes para compradores. Agora, a equação se inverteu.
De US$ 1,35 a US$ 13: o colapso da previsibilidade de preços
Os números do mercado spot ajudam a entender a urgência das negociações. Segundo dados da DRAMeXchange, o preço fixo de negociação do DDR4 saiu de US$ 1,35 em março de 2024 para US$ 13 em março de 2026, uma alta de mais de 860% em doze meses. O índice de preços fixos de DRAM acumula 11 meses consecutivos de alta.
Um executivo sênior da indústria de semicondutores ouvido pelo Hankyung foi direto ao ponto ao descrever o cenário atual:
O problema agora não é só o preço ter subido demais. O problema é que está simplesmente difícil encontrar volume de DRAM disponível no mercado
Isso levou as grandes empresas de IA a mudar de estratégia: em vez de otimizar custos no curto prazo, a prioridade passou a ser garantir acesso ao produto antes que os concorrentes façam o mesmo.

Por que isso é ruim para quem monta PC
Para o mercado consumidor, os reflexos dessa movimentação são bem negativos. Ao amarrar volumes de produção futura em contratos plurianuais com hyperscalers, os fabricantes de memória reduzem a disponibilidade de chips para o restante da cadeia, que inclui fabricantes de notebooks, placas de vídeo, smartphones e módulos para o mercado de varejo.
O efeito já tem nome no setor: analistas chamam de “regra do 3 para 1” a dinâmica em que, para cada chip de IA produzido, a capacidade equivalente à fabricação de três chips de consumo é consumida. A Micron chegou a encerrar sua submarca Crucial, voltada ao varejo, como sinal explícito de onde estão as prioridades de produção da empresa.
Com nova capacidade significativa de DRAM dificilmente chegando ao mercado antes de 2027, os contratos que estão sendo fechados agora funcionam como uma corrida para travar condições favoráveis antes que o equilíbrio de oferta mude.
Para o consumidor final, a janela de preços mais baixos pode ser curta, e episódios como a queda temporária do DDR5 gerada pelo algoritmo TurboQuant do Google tendem a ser exceções pontuais, não a tendência.
Samsung e SK Hynix ampliam investimentos em fábricas
Com a demanda aquecida e contratos de longo prazo entrando na equação, Samsung e SK Hynix aceleraram os planos de expansão de capacidade produtiva.
A Samsung concentra esforços no campus de Pyeongtaek, onde aumenta a produção de DRAM de 10nm de sexta geração (1c) para HBM4, e no campus de Hwaseong, onde avança na conversão para o processo 1b voltado a módulos de uso geral.
A SK Hynix, por sua vez, estrutura sua expansão em torno da nova unidade M15X, em Cheongju, dedicada ao HBM, enquanto o campus de Icheon acelera a transição para o processo 1c.
Os resultados financeiros do primeiro trimestre de 2026 devem refletir esse cenário. A corretora Meritz Securities projeta receita de 122 trilhões de wons e lucro operacional de 54 trilhões de wons para a Samsung no período, o que representaria quase três vezes o recorde anterior para um primeiro trimestre, registrado em 2022.
Para a SK Hynix, a FnGuide estima receita de 46,6 trilhões de wons e lucro operacional de 31,5 trilhões de wons, crescimento de 4,2 vezes na comparação anual.
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Memória como geopolítica: quem garante volume, dita as regras
O que os contratos plurianuais de DRAM revelam vai além da dinâmica de oferta e demanda. A corrida por memória entre Microsoft, Google, Meta e outros hyperscalers espelha uma competição por infraestrutura de IA que é, na prática, estrutural.
O investimento combinado dos principais hyperscalers em 2026 supera US$ 602 bilhões, segundo análises de mercado, e a OpenAI sozinha anunciou um aporte de US$ 122 bilhões em abril deste ano.
Nesse ambiente, quem trava o fornecimento de memória com antecedência não apenas protege sua operação, mas ganha vantagem competitiva direta. Os contratos que estão sendo negociados agora estabelecem as condições de acesso à matéria-prima mais disputada da infraestrutura digital global para os próximos três anos, e os fabricantes de memória raramente estiveram em posição tão favorável para ditar os termos.
Fonte(s): Hankyung


