A Microsoft anunciou que seu sistema de cabos ópticos baseado em MicroLED, chamado MOSAIC, deve ser comercializado com parceiros da indústria até o final de 2027.
O projeto, desenvolvido no Microsoft Research Lab em Cambridge, no Reino Unido, representa uma mudança de arquitetura nos cabos usados dentro de Data Centers, com impacto direto em consumo de energia, latência e custo de produção.
Por que os cabos atuais têm limitações
Hoje, os Data Centers utilizam dois tipos de cabos para transmissão de dados entre servidores.
Os cabos de cobre são rápidos e confiáveis, mas têm um alcance máximo de cerca de dois metros em alta largura de banda, o que os restringe ao interior de um único rack, tipicamente usado para conectar GPUs em aplicações de inteligência artificial.
Já os cabos de fibra óptica cobrem distâncias muito maiores, mas são sensíveis a variações de temperatura e até a poeira, além de consumirem mais energia conforme o volume de dados cresce.
O MOSAIC foi projetado para preencher essa lacuna: oferece alcance de até 50 metros, supera as limitações térmicas do laser e reduz o consumo energético de forma significativa.
Como o sistema MOSAIC funciona
O funcionamento por trás do MOSAIC inverte a abordagem convencional: os cabos ópticos tradicionais funcionam no modelo “estreito e rápido”: disparam pulsos de luz por poucos canais em alta velocidade usando lasers.
O MOSAIC adota o caminho oposto, pois usa centenas de canais paralelos em baixa velocidade, com MicroLEDs transmitindo dados em padrões que Paolo Costa, gerente de pesquisa parceiro da Microsoft e líder do projeto, compara a QR codes.
“Como um rio largo e lento em vez de um córrego estreito e rápido, ambos carregam o mesmo volume de água”, explicou Costa.
O conceito inicial de usar LEDs para enviar dados de forma mais barata e com menor consumo do que o cobre e a fibra óptica parecia uma fantasia. Esse avanço tem potencial para mudar quase todos os aspectos da infraestrutura de computação, começando pelos cabos ópticos de alta largura de banda
Doug Burger, fellow técnico e vice-presidente corporativo do Microsoft Research
Os MicroLEDs são menores, mais baratos e muito mais estáveis termicamente do que lasers. A fibra utilizada pelo sistema, chamada de fibra de imagem, é o mesmo tipo empregado em endoscopias médicas: dentro de um único fio, há milhares de núcleos independentes, cada um capaz de carregar um canal de dados.
“Essa era a peça que faltava. Finalmente tínhamos uma forma de transportar milhares de canais paralelos em um único cabo”, disse Costa.

Resultados e reconhecimento acadêmico
O artigo científico sobre o MOSAIC, apresentado no ACM SIGCOMM 2025, recebeu o prêmio de Melhor Artigo da conferência. Os dados publicados apontam para até 68% de economia de energia e taxas de falha até 100 vezes menores do que os links ópticos convencionais.
A prova de conceito realizada em parceria com a MediaTek e outros fornecedores conseguiu miniaturizar o protótipo de laboratório para caber em um transceptor padrão, compatível com os equipamentos já usados em datacenters, sem exigir nenhuma modificação em servidores ou switches.

O dispositivo tem aproximadamente o tamanho de um polegar humano e contém lentes minúsculas, fotodiodos e os próprios MicroLEDs.
A outra frente: Hollow Core Fiber já em operação
Paralelamente ao MOSAIC, a Microsoft também vem expandindo o uso da Hollow Core Fiber (HCF), tecnologia que transmite luz por um núcleo oco preenchido com ar, em vez de vidro sólido. O resultado é uma velocidade de propagação maior e, consequentemente, menor latência sobre a mesma distância.
Segundo pesquisas publicadas pela empresa, a HCF entrega até 47% mais velocidade de transmissão e cerca de 33% menos latência em comparação com a fibra monomodo convencional (SMF). A tecnologia foi eleita uma das melhores invenções de 2025 pela revista Time e já está ativa em algumas regiões do Microsoft Azure, com expansão global em andamento.
A HCF foi desenvolvida na Universidade de Southampton e amadurecida na startup Lumenisity, adquirida pela Microsoft em 2022. Para escalar a produção, a empresa firmou parcerias de manufatura com Corning e Heraeus.

Frank Rey, gerente-geral de Redes Hyperscale do Azure, explica que as duas tecnologias são complementares. O MOSAIC atua dentro dos datacenters, conectando servidores e GPUs. A HCF cobre distâncias maiores, ligando datacenters entre si e ampliando o alcance das regiões do Azure.
Com MicroLED, você tem a eficiência pura do LED sobre o laser. Isso tem impacto direto no consumo de energia de cada datacenter. E a Hollow Core nos permite ampliar a área servida por um datacenter e por uma região do Azure. Fora da região, se você consegue percorrer uma distância muito maior antes de precisar amplificar o sinal, isso significa menos prédios, menos energia, menos geradores
Frank Rey, gerente-geral de Redes Hyperscale do Azure
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O prazo de 2027 e o que ele sinaliza para a infraestrutura de IA
A previsão de comercialização do MOSAIC para o final de 2027 coincide com um momento de pressão crescente sobre a infraestrutura de IA.
O aumento acelerado na demanda por processamento em larga escala torna o consumo energético dos datacenters um dos principais gargalos do setor e qualquer tecnologia capaz de cortar pela metade o gasto com transmissão de dados dentro desses ambientes representa uma vantagem competitiva concreta.
A aposta da Microsoft em duas frentes simultâneas: MicroLED para o interior dos datacenters e HCF para as conexões de longo alcance. Isso indica uma estratégia de reengenharia da chamada “infraestrutura invisível” da computação em nuvem.
Caso os resultados laboratoriais se confirmarem em escala industrial, a forma como os dados percorrem o interior de um Data Center pode ser profundamente diferente já na segunda metade desta década.
Fonte(s): Microsoft


