A Samsung fechou um acordo trabalhista que pode transformar cada funcionário da divisão de semicondutores em milionário e, no mesmo movimento, abriu uma frente de guerra com seus próprios acionistas.
O pacote de bônus Samsung acertado com o sindicato prevê desembolso de até 40 trilhões de won (cerca de US$ 26,6 bilhões, algo como R$ 134 bilhões na cotação atual) só em 2026, com média individual perto de US$ 400 mil para parte da equipe.
A informação foi divulgada pela agência sul-coreana Yonhap e replicada por veículos como Bloomberg, Korea Herald e Korea Times. O entendimento foi assinado na noite de quarta-feira, no escritório regional de Emprego e Trabalho de Gyeonggi, em Suwon, evitando a greve de 18 dias que estava marcada para começar em 21 de maio e ameaçava paralisar uma das engrenagens centrais da indústria global de chips.
Como o pacote foi desenhado
O coração do acordo é um novo Special Business Performance Bonus exclusivo para a divisão DS (Device Solutions), que abrange memória, foundry e LSI. O cálculo soma 10,5% do lucro operacional da divisão em formato de bônus, pago parcialmente em ações, com mais 1,5% em dinheiro vivo via programa OPI já existente. No total, são 12% do lucro operacional retornando aos funcionários, sem teto de pagamento.
A vigência prevista é de dez anos, condicionada a metas agressivas. Entre 2026 e 2028, o resultado operacional da DS precisa superar 200 trilhões de won anuais (cerca de US$ 132 bilhões, ou aproximadamente R$ 666 bilhões).
De 2029 a 2035, o gatilho cai para 100 trilhões de won (US$ 66 bilhões, em torno de R$ 333 bilhões), patamar que deixa pouca margem de erro para a empresa.
A distribuição interna também tem regra própria: 40% do bolo vai para toda a divisão DS de forma horizontal; os 60% restantes são repartidos por unidade de negócio, premiando proporcionalmente quem mais entrega.
Áreas de apoio como RH e contabilidade recebem 70% do índice pago à equipe de memória.
A conta de US$ 400 mil por cabeça
Com a Samsung projetando lucro operacional de cerca de 300 trilhões de won (US$ 198 bilhões, aproximadamente R$ 999 bilhões) para 2026 na divisão DS, o pool exclusivo do bônus especial chega a 31,5 trilhões de won.
Estimativas do Bloomberg apontam que cada um dos 78 mil funcionários da divisão de chips receberia, em média, 513 milhões de won, valor equivalente a US$ 340 mil ou aproximadamente R$ 1,72 milhão pela cotação comercial atual de R$ 5,05.
Cálculos do veículo coreano The Asia Business Daily são ainda mais agressivos: nas faixas mais altas, funcionários da divisão de memória podem chegar a 600 milhões de won, o que se aproxima de US$ 397 mil ou R$ 2,02 milhões. Os valores não consideram impostos brasileiros nem qualquer imposto sul-coreano que incida sobre o pagamento.
A diferença em relação à média histórica é gritante. Em 2025, o salário médio anual de um funcionário da Samsung Electronics ficou em 158 milhões de won, segundo registro oficial entregue pela empresa em março. O pacote agora desenhado equivale, na média, a mais de três anos de remuneração concentrados em um único ciclo de bônus.
Confira o resumo das principais cifras envolvidas no acordo:
| Item | Valor em won | Conversão (USD) | Conversão (BRL) |
|---|---|---|---|
| Pool total estimado de bônus em 2026 | 40 trilhões | US$ 26,6 bilhões | R$ 134,3 bilhões |
| Pool do bônus especial (DS) | 31,5 trilhões | US$ 20,9 bilhões | R$ 105,7 bilhões |
| Média por funcionário (Bloomberg) | 513 milhões | US$ 340 mil | R$ 1,72 milhão |
| Topo da faixa (memória) | 600 milhões | US$ 397 mil | R$ 2,02 milhões |
| Salário médio Samsung em 2025 | 158 milhões | US$ 105 mil | R$ 530 mil |
| Meta de lucro 2026–2028 (DS) | 200 trilhões/ano | US$ 132 bilhões | R$ 666,6 bilhões |
| Meta de lucro 2029–2035 (DS) | 100 trilhões/ano | US$ 66 bilhões | R$ 333,3 bilhões |
Valores convertidos pela cotação comercial de R$ 5,05 por dólar e não incluem impostos brasileiros nem taxas de importação.
Acionistas contestam validade do acordo
A reação veio rápida, o grupo Korea Shareholder Action Headquarters, que representa investidores minoritários, organizou ato de protesto em frente à residência do presidente da Samsung Electronics, Lee Jae-yong, no centro de Seul.
A entidade classificou o pacote como ilegal e prometeu medidas judiciais para barrar qualquer movimentação de caixa baseada no entendimento.
“O acordo para acumular e distribuir 12% do lucro operacional antes dos impostos é ilegal. Sem aprovação em assembleia geral de acionistas, ele é legalmente inválido.”
O argumento jurídico se apoia no Commercial Act da Coreia do Sul. Para os acionistas, qualquer desembolso vinculado ao lucro operacional precisa passar por resolução da assembleia, e não apenas por entendimento entre direção e sindicato.
O grupo afirma que vai pedir liminar para bloquear a execução do acordo e ação para anular eventual deliberação do conselho.
A entidade também sinalizou que pode ir atrás de indenizações caso os sindicalizados rejeitem o pacote em votação e voltem a ameaçar greve, tratando o movimento como ação industrial ilegal. Nem trabalhadores, nem direção saem ilesos do confronto.

A votação que pode derrubar tudo
O acordo ainda não é definitivo… Os cerca de 70 mil membros do sindicato participam de votação aberta entre 23 e 28 de maio para ratificar ou rejeitar o entendimento. A divisão original do pedido sindical era 15% do lucro operacional, e o desfecho fechou em 12%, percentual menor do que o reivindicado.
Há também atrito interno na própria Samsung. Funcionários das divisões DX (Device Experience), que englobam celulares, eletrodomésticos e displays, observam o pacote da divisão de chips com desconforto.
A diferença implícita de remuneração entre quem fabrica memória e quem monta produto final pode azedar ainda mais a relação entre as áreas e jogar pressão sobre subcontratados, que tendem a cobrar fatia maior do que recebem hoje.
O combustível por trás dos números
A explicação para o tamanho da conta passa pelo boom de inteligência artificial. A demanda por memória de alta largura de banda, ou HBM, transformou um negócio historicamente cíclico em uma das atividades mais lucrativas do planeta.
A Bloomberg projeta que o lucro operacional consolidado da Samsung em 2026 deve multiplicar por sete em relação a anos anteriores, chegando a 330 trilhões de won (cerca de US$ 218 bilhões, ou aproximadamente R$ 1,1 trilhão).
A própria Samsung tem buscado recuperar terreno frente a SK Hynix e Micron no segmento de HBM, com memórias HBM4 já em produção em massa e o HBM4E exibido publicamente pela primeira vez na GTC 2026, em parceria com plataformas como Vera Rubin Ultra, da NVIDIA. A escalada de receita nesse segmento foi o que viabilizou o tamanho da proposta entregue ao sindicato.
A SK Hynix, principal concorrente direta da Samsung em HBM, também colocou em curso programa próprio de partilha de lucros, prevendo distribuir 10% do resultado operacional aos seus 33 mil funcionários.
A média por cabeça projetada gira em torno de 140 milhões de won, valor inferior ao desenhado pela Samsung mesmo na hipótese mais conservadora.
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O que pode acontecer nos próximos dias
A janela curta de votação concentra os próximos riscos; se os sindicalizados aprovarem o pacote, a discussão se desloca para a esfera judicial, com a Korea Shareholder Action Headquarters preparando petição de injunction e ação anulatória.
Se rejeitarem, a ameaça de greve volta à mesa e o governo sul-coreano, que mediou o entendimento via Ministério do Trabalho, pode ser obrigado a invocar arbitragem emergencial.
A Samsung escolheu pagar um preço alto para evitar a paralisação de uma das engrenagens mais críticas do mercado global de semicondutores. Semicondutores respondem por cerca de 35% das exportações da Coreia do Sul, e qualquer interrupção produtiva teria efeito amplificado sobre a balança comercial do país.
O risco agora é o dinheiro não chegar nem aos trabalhadores nem aos cofres. Acionistas dispostos a litigar, sindicato dividido entre aprovar e pedir mais, e divisões internas observando com inveja o que cabe à área de chips: a equação que destravou a maior distribuição de bônus da história da empresa pode acabar travada antes do primeiro depósito.
Fonte(s): Yonhap News Agency, Bloomberg, The Korea Herald, The Korea Times e Asia Business Daily


