Os principais fabricantes de memória encerraram o primeiro trimestre de 2026 com lucros que, em alguns casos, já superaram o resultado consolidado do ano inteiro de 2025.
A causa é a mesma que vem apertando o bolso de quem monta PC há meses: a demanda explosiva por DRAM e NAND Flash impulsionada pelo avanço da inteligência artificial nos Data Centers.
A previsão para o segundo trimestre só piora o cenário para o consumidor. As fabricantes já avisaram parceiros sobre um novo reajuste em torno de 40% nos contratos a partir de abril, segundo apuração do site WCCFTech.
ADATA tem o melhor trimestre em 25 anos
O caso mais simbólico desse novo ciclo é o da ADATA, fabricante taiwanesa de memória e armazenamento. A empresa fechou o primeiro trimestre de 2026 com lucro líquido de NT$ 9,53 bilhões, alta de mais de 17 vezes em relação ao mesmo período do ano anterior, conforme balanço divulgado pelo jornal taiwanês Commercial Times.
A receita consolidada chegou a NT$ 26,1 bilhões, equivalente a aproximadamente US$ 800 milhões (cerca de R$ 4 bilhões pela cotação comercial atual, sem considerar tributos brasileiros nem taxas de importação). O número representa crescimento de 64,7% em relação ao trimestre anterior e de 163,4% na comparação anual.
A margem bruta saltou para 55,69%, com margem operacional de 47,1% e margem líquida de 49,2%. O lucro por ação atingiu NT$ 30,05, o maior já registrado nos 25 anos de história da companhia.
Outras fabricantes também viram resultado disparar
A ADATA não está sozinha. Outras quatro fabricantes registraram trimestres recordes ou próximos disso, com margens infladas pela mesma onda:
| Empresa | Origem | Destaque do trimestre |
|---|---|---|
| ADATA | Taiwan | Lucro 17x maior na comparação anual; EPS recorde |
| Macronix | Taiwan | Assumiu fatia da DRAM low-end deixada pela Samsung |
| Apacer | Taiwan | Receita e margens em alta histórica |
| Team Group | Taiwan | Resultado bem acima do trimestre anterior |
| Nanya Technology | Taiwan | Recorde de receita; selecionada pela NVIDIA para LPDDR5X da plataforma Vera Rubin |
A Macronix ocupou o espaço deixado pela Samsung, que vem migrando capacidade fabril para produtos de maior margem como HBM (memória de alta largura de banda) e DRAM para servidores.
O movimento é justamente o que está estrangulando o mercado de memória voltado ao consumidor.

Trimestre que passou já foi forte e o próximo será pior
A consultoria TrendForce já havia projetado que os contratos de DRAM convencional fechariam o primeiro trimestre com alta de 90% a 95% em relação ao trimestre anterior, um recorde para a categoria.
Para o segundo trimestre de 2026, a casa estima novo avanço de 58% a 63% em DRAM e de 70% a 75% em NAND Flash.
“O desempenho do primeiro trimestre é apenas o ponto de partida do ano. O mercado entrou em um novo normal de aperto prolongado de oferta. Com a Samsung e demais fornecedoras ajustando seus mixes de produto, a oferta de DDR4 e DDR5 está convergindo e, somada à escassez persistente de HBM, o mercado de DRAM dificilmente vai afrouxar no curto prazo”
Chen Libai, presidente da ADATA, em comunicado
A leitura encontra eco em decisões já anunciadas por gigantes como Samsung e SK hynix, que encurtaram a duração de seus contratos para reprecificar com mais frequência, e pela Apple, que retirou do site a opção de upgrade para 512 GB no Mac Studio enquanto reorganiza a cadeia.
Por que está faltando memória?
A pressão sobre a oferta tem origem na corrida pela inteligência artificial generativa.
Provedores de nuvem norte-americanos estão fechando contratos de longo prazo (LTAs) para travar capacidade futura, principalmente em RDIMMs de alta densidade usados em servidores de inferência. Essa fila preferencial empurra para o final da prateleira os pedidos voltados a PCs, notebooks e celulares.
No lado da NAND Flash, o quadro é parecido. SSDs corporativos viraram o segmento mais lucrativo do setor em 2026 e devem ultrapassar os SSDs para clientes em volume de produção.
A consequência prática é uma escassez que, segundo a TrendForce, deve persistir até pelo menos o final de 2027, com expansão relevante de capacidade fabril prevista apenas para 2028.
Greve na Samsung pode apertar mais a torneira
Como se o cenário não estivesse suficientemente travado, a Samsung enfrenta uma paralisação de 18 dias em sua linha de produção.
A estimativa interna é de que a interrupção possa cortar até 4% da produção mundial de DRAM e NAND, com tempo de recuperação previsto entre duas e três semanas após o fim da greve.
A ADATA antecipou-se ao risco e está represando estoque de wafer NAND, peça-chave da fabricação de SSDs. A empresa pretende elevar o nível para mais de NT$ 40 bilhões até o fim de abril e chegar a NT$ 50 bilhões em junho, justamente para garantir cadência de entregas no segundo semestre.

Quem vai pagar a conta no Brasil
Para quem monta PC no Brasil, o efeito chega com atraso, mas chega. Já se vê módulos de DDR5 de 16 GB acima de R$ 900 nas grandes varejistas, e fabricantes de notebooks como Dell e Lenovo sinalizam reajustes de até 15% nos catálogos voltados ao consumidor final. Em PCs prontos da Framework, o salto de capacidade de 32 GB para 128 GB chegou a custar US$ 460 a mais.
A IDC já revisou suas projeções e prevê que o preço médio dos computadores pode subir entre 4% e 8% ao longo de 2026, dependendo de quanto da alta as marcas conseguirem absorver antes de repassar.
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Margem de 50% explica para onde foi o estoque
A simetria do trimestre ajuda a entender por onde o dinheiro está circulando. A mesma demanda que faz uma fabricante taiwanesa multiplicar o lucro por 17 vezes em doze meses é o que tira do alcance do consumidor brasileiro um pente decente de DDR5.
A ADATA, com margens próximas dos 50%, não está vendendo mais memória. Está vendendo a mesma memória por valores muito maiores. E cada novo data center de IA inaugurado lá fora drena estoque global, tornando mais difícil para qualquer fabricante justificar o desvio de wafer para o varejo.
Na prática, quem precisa trocar a RAM em 2026 está competindo com OpenAI, Google e AWS pelo mesmo chip de silício. E nessa briga, o usuário comum sempre vai chegar por último.
Fonte(s): Commercial Times (Taiwan) e TrendForce


