Você jogou Pokémon GO e nem sabia que estava treinando robôs com IA

Jogadores de Pokémon GO ajudaram, sem saber, a construir um dos maiores bancos de dados de imagens urbanas do mundo — e agora esse acervo está sendo usado pela empresa de inteligência artificial Niantic Spatial para treinar robôs autônomos de entrega. A parceria com a startup Coco Robotics, anunciada em 10 de março de 2026, marca uma virada na forma como a IA aprende a navegar pelas ruas das cidades.

A base de dados foi construída ao longo de uma década por mais de 100 milhões de jogadores que escanearam ruas, monumentos e pontos públicos enquanto caçavam Pokémons. O resultado são mais de 30 bilhões de imagens urbanas que agora alimentam o sistema de posicionamento visual (VPS) da Niantic Spatial.

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O MAPA QUE O JOGO CONSTRUIU

A Niantic Spatial — braço de inteligência artificial da Niantic, criadora do Pokémon GO — desenvolveu o que chama de “modelo geoespacial de grande escala”, composto por dados de 10 milhões de locais escaneados ao redor do mundo, capturados da perspectiva de pedestres, incluindo lugares inacessíveis a carros. Além das imagens do Pokémon GO, o modelo foi treinado com dados do jogo Ingress, lançado em 2013, também da Niantic.

Os dados se destacam pela sua diversidade de contextos, o que torna o banco de imagens único para navegação autônoma:

  • Perspectiva pedestre — imagens capturadas de calçadas e espaços públicos inacessíveis a veículos
  • Múltiplos ângulos — o mesmo ponto de interesse fotografado de diversas direções por jogadores diferentes
  • Variação de horários — escaneamentos feitos de manhã, à tarde e à noite do mesmo local
  • Condições climáticas diversas — registros em dias ensolarados, nublados e chuvosos
  • Escala global — 10 milhões de locais espalhados por cidades de todo o mundo
Divulgação/Niantic Spatial

COMO OS ROBÔS SE BENEFICIAM

O grande problema enfrentado pelos robôs era a falha de GPS em ambientes como corredores urbanos densos e áreas internas. O sistema VPS da Niantic Spatial resolve esse gargalo ao usar pistas visuais do ambiente para determinar a posição com precisão de poucos centímetros, sem depender de satélites.

Coco Robotics, apoiada pela OpenAI, dona do ChatGPT, já opera com essa tecnologia em diversas cidades. Veja o perfil atual da frota:

CaracterísticaDetalhe
Tamanho dos robôsEquivalente a uma mala de viagem
Frota ativaCerca de 1.000 robôs
Entregas realizadasAproximadamente 500 mil
Câmeras por robô4 câmeras acopladas
Cidades de operaçãoLos Angeles, Chicago, Miami, Helsinki
Apoio institucionalOpenAI (dona do ChatGPT)

“O MESMO PROBLEMA DO PIKACHU”

O CEO da Niantic Spatial, John Hanke, resumiu a conexão entre games e robótica de forma direta: “Fazer o Pikachu correr de forma realista e fazer o robô da Coco se mover com segurança e precisão é, na verdade, o mesmo problema.” A frase ilustra como a engenharia de realidade aumentada e a robótica autônoma compartilham desafios técnicos profundos.

Segundo Zach Rash, cofundador e CEO da Coco Robotics, a tecnologia oferece “acesso confiável a serviços de localização que melhoram ainda mais a navegação dos robôs”, com planos de expandir a autonomia da frota para novas cidades nos próximos anos.

DADOS OPCIONAIS, MAS POLÊMICOS

A Niantic afirma que os escaneamentos são completamente opcionais e que “simplesmente andar por aí jogando nossos jogos não é treinar um modelo de IA”. Os usuários precisavam visitar um local público específico e clicar para escanear — como acontecia na função “Pesquisa de Campo”, que oferecia recompensas no jogo em troca de varreduras de pontos de referência desde 2020.

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Ainda assim, a revelação gerou reações mistas nas redes sociais. No X (antigo Twitter), um usuário resumiu o sentimento de muitos: “500 milhões de pessoas jogaram Pokémon GO, escanearam cada rua e edifício do planeta, achando que estavam capturando Pikachu. A Niantic estava construindo um mapa de IA com 30 bilhões de imagens que agora move robôs de entrega. Você foi o produto o tempo todo.”

RUMO AO “MAPA VIVO”

A visão de longo prazo da Niantic Spatial vai além das entregas. John Hanke afirma que o objetivo é construir um “mapa vivo” — uma simulação hiperdetalhada do mundo com variações de horário e clima — que permita treinar robôs para reconhecer objetos e realizar entregas tão precisas quanto as feitas por humanos.

O CTO da Niantic Spatial, Brian McClendon, admite que a tecnologia ainda não chegou lá, mas demonstra confiança no caminho: “Ainda não chegamos lá, mas queremos chegar.” Com décadas de dados coletados por gamers ao redor do mundo, a base para essa ambição já foi construída — escaneamento por escaneamento.

Via: independent

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