Uma equipe de pesquisadores liderada pela Universidade de Stuttgart identificou um comportamento inédito em materiais bidimensionais torcidos, revelando texturas de spin de longo alcance que ultrapassam o padrão moiré subjacente do material.
A descoberta do super-moiré magnético em estruturas de Triiodeto de Cromo pode abrir portas para uma nova geração de dispositivos de armazenamento de dados com densidade ultra-alta.
Publicado na revista Nature Nanotechnology em fevereiro de 2026, o estudo utilizou imagens magnéticas em nanoescala e temperaturas criogênicas para observar o fenômeno.
A manipulação de ângulos em materiais de Van der Waals, compostos por camadas atomicamente finas, tem sido um grande foco no setor de hardware e ciência de materiais, pois pequenos ajustes angulares podem modificar drasticamente o comportamento eletrônico e magnético.
O efeito da torção nos materiais 2D
Utilizando magnetometria de varredura com vacância de Nitrogênio, os cientistas conseguiram imagens diretas de texturas magnéticas ordenadas que abrangem múltiplas células unitárias moiré.
Conforme o ângulo de torção aumentava dentro de uma faixa estreita, o tamanho característico dessas texturas crescia, atingindo cerca de 300 nanômetros em uma torção de 1,1 grau, antes de desaparecer em ângulos próximos a dois graus. Essas características individuais mediam cerca de 60 nanômetros.

Diferente dos estados magnéticos anteriormente relatados em Triiodeto de Cromo, confinados a uma configuração de empilhamento única, estas texturas formam um estado de ordem superior.
O super-moiré magnético reorganiza o magnetismo em uma escala de comprimento maior, desacoplando-se do padrão geométrico padrão quando o período moiré é suficientemente reduzido.
Skyrmions e o futuro do armazenamento
Os pesquisadores atribuem esse comportamento à competição entre interações de troca, anisotropia magnética e a interação Dzyaloshinskii-Moriya interfacial. O resultado é a estabilização de skyrmions antiferromagnéticos.
As quase-partículas são de particular interesse para a indústria de tecnologia porque espera-se que suprimam o efeito Hall de skyrmion, permitindo movimentos mais retilíneos e controláveis do que seus equivalentes ferromagnéticos.

À medida que os volumes de dados continuam a crescer, as futuras mídias de armazenamento magnético devem ser capazes de armazenar informações de forma confiável em densidades cada vez maiores. Nossos resultados são, portanto, diretamente relevantes para as tecnologias de armazenamento de dados de próxima geração
Professor Jörg Wrachtrup, chefe do Centro de Tecnologias Quânticas Aplicadas da Universidade de Stuttgart
Entenda os termos-chave sem precisar ser físico
Para quem não vive no mundo da física de materiais, os conceitos envolvidos parecem intimidadoras. Na prática, eles descrevem fenômenos bem concretos:
- Materiais bidimensionais (2D): materiais formados por camadas com espessura de um único átomo ou poucos átomos. Pense em folhas extremamente finas empilhadas umas sobre as outras.
- Materiais de Van der Waals: conjuntos dessas camadas 2D que ficam unidas por forças fracas, permitindo que sejam torcidas ou deslocadas sem quebrar a estrutura.
- Ângulo de torção: o grau de rotação entre duas camadas empilhadas. Mesmo mudanças mínimas, como 1 grau, alteram profundamente o comportamento elétrico e magnético do material.
- Padrão moiré: um desenho periódico que surge quando duas camadas quase iguais são sobrepostas com uma pequena rotação. Esse padrão funciona como uma “grade” que influencia como elétrons e spins se organizam.
- Spin: propriedade quântica do elétron que pode ser entendida, de forma simplificada, como um pequeno ímã apontando para cima ou para baixo.
- Texturas de spin: arranjos organizados desses “miniímãs” ao longo do material, formando padrões estáveis em escala nanométrica.
- Super-moiré magnético: um padrão magnético que surge em uma escala ainda maior que o moiré original, indicando um novo nível de organização coletiva dos spins.
- Skyrmions: estruturas magnéticas extremamente pequenas e estáveis, que se comportam como quase-partículas e podem representar bits de informação.
- Skyrmions antiferromagnéticos: versões em que spins opostos se cancelam parcialmente, reduzindo interferências indesejadas durante o movimento desses bits.
- Interação Dzyaloshinskii-Moriya: um efeito físico que favorece torções nos spins, essencial para estabilizar skyrmions em certos materiais.
Por que isso importa para discos rígidos e hardware de armazenamento
Do ponto de vista de hardware, essa descoberta toca diretamente no maior gargalo dos discos rígidos modernos: densidade magnética e estabilidade térmica.
Nos HDDs atuais, cada bit de informação é armazenado em regiões magnéticas cada vez menores. À medida que esses domínios encolhem, surgem dois problemas críticos:
- Instabilidade magnética causada por ruído térmico.
- Interferência entre bits vizinhos, que limita o quanto os pratos podem ser compactados.
Os skyrmions, principalmente os antiferromagnéticos observados nesse estudo, oferecem vantagens técnicas relevantes:
- Escala extremamente reduzida: estruturas na casa de dezenas de nanômetros permitem densidades muito superiores às tecnologias magnéticas tradicionais.
- Alta estabilidade topológica: diferente de domínios convencionais, skyrmions resistem melhor a defeitos e flutuações térmicas, reduzindo perda de dados.
- Movimentação controlada: a supressão do efeito Hall de skyrmion nos estados antiferromagnéticos permite deslocamento mais previsível, algo essencial para leitura e gravação precisas.
- Menor consumo energético: a escrita e o deslocamento desses estados exigem correntes elétricas significativamente menores do que técnicas atuais como HAMR ou MAMR.
O conceito de super-moiré magnético adiciona um diferencial : ele permite ajustar o comportamento magnético apenas alterando o ângulo entre camadas, sem mudar o material ou sua composição química. Em termos industriais, isso significa:
- Mais flexibilidade no projeto de mídias magnéticas.
- Possibilidade de otimizar densidade e estabilidade via engenharia estrutural.
- Caminho viável para ultrapassar limites físicos que já começam a travar a evolução dos HDDs.
Embora ainda distante do uso comercial direto, o mecanismo descoberto aponta para um futuro em que o armazenamento magnético deixe de depender apenas de calor, campos intensos ou novos materiais exóticos, passando a explorar geometria atômica como ferramenta de engenharia de hardware.
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Desafios para implementação comercial
Como é comum em estudos de ponta sobre tendência tecnológica, o trabalho ainda está em estágios iniciais de pesquisa.
As medições foram realizadas em temperaturas extremamente baixas, e o Triiodeto de Cromo é sensível ao ar, o que o torna inadequado para integração direta em eletrônicos de consumo atuais fora de laboratórios controlados.

No entanto, os autores do estudo observam que o mecanismo subjacente deve ser transferível para outros materiais magnéticos em camadas, incluindo sistemas que operam em temperaturas mais altas.
A capacidade de usar o ângulo de torção como um parâmetro de ajuste eficaz para estabilizar tais estados magnéticos, sem alterar a composição química, representa um avanço significativo para a engenharia de materiais e futuros componentes de hardware.
A pesquisa indica que este novo estado pode ser a chave para superar os limites físicos atuais dos discos rígidos e memórias magnéticas, permitindo que a indústria continue a escalar a capacidade de armazenamento em um mundo cada vez mais dependente de dados massivos.
Fonte(s): Nature Nanotechnology


